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The Political Crow

The Political Crow

25 de Setembro, 2025

The US Culture War against Europe

JFD

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“I hate to say that I told you so, but I told you so.” It may seem self-serving to appeal to one’s own foresight, but in the face of facts, it becomes inevitable.

Since 2018, I have been focusing on the so-called “culture wars”, a phenomenon rooted in the clash between so-called “conservatives” and “progressives” around moral issues such as abortion, the role of religion in society, same-sex marriage and other LGBT rights, gender identity, immigration, or national identity. These differences generate extreme polarization, amplified by social media, and translate into a genuine struggle for cultural hegemony at the heart of our societies.

In the face of the rise of a cultural left, which abandoned workers’ struggles to concentrate on identity-based causes and whose values gradually became dominant within social institutions, there emerged an inevitable reaction in the opposite direction—the so-called “cultural backlash”, a political response promoting ethnonationalist values.

This brings us to the recent report by the European Council on Foreign Relations (ECFR), in partnership with the European Cultural Foundation, which states that Donald Trump is waging a “culture war” against liberal democracy in Europe, fostering an ideological shift toward nationalist and illiberal values.

A report that is not only unsurprising but also belated. For quite some time, Europe has been the privileged stage for illiberal experiments, reopening old wounds on a continent scarred by the traumas of nationalism and authoritarianism. The political transformations that unfolded in Europe after the 2008 financial crisis and the 2015 refugee crisis are paradigmatic of the electoral drift toward what political scientist Cas Mudde has called the “far right.”

The instrumentalization of economic resentment in favor of an ethnic and religious nationalism—directed against immigrants, the left, and multiculturalism—resonates deeply with the emergence of nationalisms in the 1930s, the results of which are all too well known.

Yet Le Pen, Orbán, Fico, Farage, Meloni, or Wilders are not merely the result of MAGA-style ideological channelling of resentment, as the report suggests. In fact, the “culture war” Trump is now waging against European institutions, the multilateral order, the values of fundamental rights grounded in the principle of human dignity, and the foundations of the liberal rule of law, began with Putin. And here the report falls short.

It is precisely with Vladimir Putin that the seeding of racial and religious nationalism in Europe begins—a process that culminates in the war in Ukraine. Let me explain: Putin viewed NATO’s eastward expansion not only as a geopolitical issue, but as a civilizational one. Conceiving Russia as its own civilization, based on a distinct cultural and religious identity, Byzantine in orientation and czarist in spirit, Putin regarded NATO’s presence on his border as a civilizational threat—representing the advance of liberal democracy and its inclusive values, which undermine Russia’s spiritual order with sexual freedom, women’s emancipation, and LGBT rights.

It was precisely to confront liberal democratic values that Putin financed the European radical right, promoting an illiberal order whose Western epicenter became Orbán’s Hungary.

Trump’s “culture war” against Europe is therefore part of a broader cultural war that unites a nationalist international of authoritarian inspiration, neofascist in kind. The exaltation of a nationalist ideal of economic, industrial, cultural, and geopolitical closure is a project that binds Trump and Putin with the same objective: to dismantle Europe’s human rights order and its liberal democracy from within.

Europeans would do well to remember the old maxim: those who fall asleep in democracy, wake up in dictatorship.

23 de Setembro, 2025

Quem era Charlie Kirk, o rosto do ativismo conservador radical americano?

JFD

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O seu ativismo conservador radical começa no liceu, através do envolvimento na política local. Porém, a viragem acontece na Universidade, na Harper College. Em linha com o chamado cultural backlash, isto é, o movimento culturalmente reativo face ao progressismo, Kirk via as universidades americanas como espaços de doutrinação, cadeias de transmissão de ideias progressistas, de forma totalizadora. Esta visão conservadora, que condena a existência de um suposto «marxismo cultural» a dominar a sociedade americana, assenta numa leitura invertida da teoria gramsciana de «hegemonia cultural». 

Ou seja, Kirk foi inspirado por uma corrente de nova direita, culturalista, que olhou para o avanço acelerado do progressismo, associada à esquerda culturalista, e, relendo Gramsci, considerou que para reconquistar a hegemonia supostamente perdida para a esquerda culturalista, teria de começar pela cultura, através de intelectuais orgânicos. É nesse papel que Kirk se viu e atuou.

Assim, em 2012, ainda com 18 anos, cofundou, com Bill Montgomery, a organização Turning Point USA (TPUSA), cujo escopo era a promoção de valores conservadores em campi universitários, através de ações, em especial debates, palestras e distribuição de informações com panfletos. 

Em 2019, Kirk funda outra organização, Turning Point Action (TPAction), que juridicamente contorna as limitações da TPUSA, agindo como braço político, envolvendo-se em campanhas políticas locais e nacionais, recrutamento porta-a-porta de jovens, bem como o movimento “Students for Trump” para as eleições de 2020. 

O seu ativismo incidia em ações públicas pelo país, como os debates nos campi universitários, com o formato “Prove Me Wrong”, e uma intensa representação mediática, sobretudo através das redes sociais e do seu podcast “The Charlie Kirk Show”. 

Os temas

Kirk rapidamente se tornou num dos rostos mais emblemáticos do conservadorismo radical, a hard-right, e do movimento MAGA. O seu foco era o nacionalismo cristão, defendendo uma clara convergência entre Estado e confessionismo, com os valores cristãos a deverem orientar a moral social e política. Essa visão praticamente teocrática da vida política e social, levava-o a tomar posições como a condenação absoluta do aborto, em qualquer circunstância, considerando-o crime gravoso, chegando a colocar a questão num plano equitativo ao holocausto. Esta posição reflete a forma como o conservadorismo radical soube recuperar a retórica inflamada da era da ascensão do fascismo. 

Também em relação aos direitos LGBTQ+, Kirk progressivamente adotou uma posição tipicamente da reação cultural do nacionalismo radical, vendo no avanço dos direitos das minorias sexuais uma agenda política para colocar em causa a família tradicional. Essa progressão de uma posição mais moderada, que admitia os direitos LGBTQ+, porém rejeitava a imposição de uma política de linguagem típica do progressismo radical “woke”, para uma posição mais concordante com o nacionalismo cristão, traduz a forma como Kirk foi hábil a navegar a onda nacionalista MAGA. 

Sobre a imigração, outro tema central para a direita radical, Kirk adotou uma visão muito crítica, apoiando políticas restritivas de entrada e de controlo, fazendo uso de uma linguagem alarmista sobre “invasão” e perigo criminal, concordante com a teoria da “grande substituição” em voga na direita radical europeia. 

Outro tópico fraturante na sociedade americana é as chamadas políticas DEI, ou seja, Diversidade, Equidade e Inclusão, desenhadas para corrigir falhas sistémicas da sociedade americana contra minorias raciais, e que pelas mudanças demográficas no país começaram a ser vistas como programas políticos da esquerda contra a maioria branca, entrando no eixo da teoria da “grande substituição”. 

Vírus da China

Kirk ganhou grande visibilidade durante a Covid-19, espalhando desinformação, críticas à OMS, promovendo a hidrocloroquina, e falando de um “vírus da China”, como parte de uma luta política antecipada do trumpismo. Durante esse período, fez intensa campanha contra os confinamentos, vendo-as como políticas de controlo estatal. 

Legado

O trabalho de doutrinação radical cristã de Kirk permanecerá através da Turning Point USA, agora liderada pela sua mulher. Donald Trump, que foi um grande beneficiário do trabalho de Kirk, que mobilizou milhares de jovens para o movimento MAGA, aproveitou a sua morte para lançar uma política de perseguição a organizações e movimentos progressistas, numa verdadeira “caça às bruxas” ao estilo da guerra fria.