Do Desencantamento ao Reencantamento: A Nova Religiosidade das Ideologias Políticas

A separação entre Estado e Igreja inaugurou o que Max Weber chamou de “desencantamento do mundo”. Mas a ausência de uma religião civil nas democracias ocidentais não eliminou a necessidade de sentido transcendental. Pelo contrário, abriu espaço para novas formas de espiritualidade — ora centradas no indivíduo, ora projetadas em ideologias políticas que reencenam o sagrado sob novas roupagens.

A separação entre Estado e Igreja, enquanto marco fundacional das democracias liberais, abriu caminho à secularização das sociedades e àquilo que Max Weber denominou de desencantamento do mundo. Com o declínio da religião institucional como fonte dominante de sentido, assistiu-se à emergência de novos itinerários espirituais — desde a adesão a comunidades religiosas alternativas até experiências individuais de espiritualidade holística, moldadas pelo liberalismo moderno e pela autonomia do sujeito.

É nesse contexto que surge o despertar espiritual da Nova Era: uma espiritualidade personalizada, híbrida, centrada na experiência subjetiva do “eu” como entidade espiritual em constante reinvenção. Aqui, a religiosidade não é institucional, mas vivencial; não é dogmática, mas estética; não é coletiva, mas individualizada e sensível às dinâmicas do mercado espiritual global.

Contudo, paralelamente a esse despertar imaterial centrado no “sujeito-alma”, emergiu um outro tipo de reencantamento — desta vez, político. Nele, o sujeito percebe-se como oprimido ou opressor, e a salvação vem pela denúncia, pela exposição e pela purificação social. Este reencantamento dá origem a formas de religiosidade secular que, embora desvinculadas de Deus, mantêm intacta a estrutura simbólica da religião. O movimento woke é talvez o seu exemplo mais emblemático: confessional, redentor, escatológico.

A sua estrutura remete diretamente ao cristianismo: a culpa como motor de autoflagelação, a expiação como purificação moral, a boa nova que precisa ser pregada aos “ignorantes”, o impulso missionário, o ritual coletivo das marchas e o rito individual das redes sociais, a presença de profetas e eleitos, dogmas incontestáveis e um sentido de pertença espiritual. Não se trata apenas de política, mas de uma liturgia com vocação transformadora e transcendência imanente.

Paradoxalmente, o mesmo padrão pode ser identificado do lado oposto do espectro ideológico. O populismo de direita — sobretudo na sua vertente iliberal — encena igualmente uma religiosidade política: o líder messiânico, o povo eleito, a decadência moral como sinal dos tempos, a nação como corpo sagrado, o inimigo externo como demónio. A retórica política ganha tons apocalípticos. A promessa já não é apenas de ordem ou segurança, mas de redenção.

O que une essas manifestações é precisamente a sua natureza confessional. A política transforma-se num campo espiritual, com as suas ortodoxias, heresias e sacramentos. Em vez de desaparecer, a estrutura simbólica do cristianismo parece reaparecer em novas roupagens — seja nas margens urbanas da Nova Era, nos altares do woke, ou nas catedrais populistas do ressentimento nacionalista.

O reencantamento do mundo é, portanto, um processo em curso. Ele não se limita ao regresso às igrejas por parte dos conservadores, nem se esgota na luta progressista por justiça social. Inclui também o retorno da religião como forma simbólica, como matriz arquetípica, como mecanismo profundo de pertença e identidade. E talvez nos ensine que, por mais secular que se torne o mundo, a necessidade de transcendência — e de liturgia — nunca desaparece. Apenas muda de lugar.


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